11/04/2014

Controle biológico: a Isca espera boas colheitas

 

Interface CTI
Calos Martins

A Isca Tecnologias, de Ijuí (RS), quer ganhar espaço no mercado de controle biológico de pragas. O caminho escolhido para isso é criar produtos que possam ser usados em larga escala, em grandes plantações, e combatam vários tipos de insetos. Seu primeiro lançamento, com essa característica, aconteceu no ano passado e procura inovar na tecnologia dos semioquímicos, área de especialização da empresa. 

Os semioquímicos, substâncias voláteis que animais expelem como forma de comunicação, para o acasalamento, por exemplo, trazem o benefício de serem produtos naturais. Sua aplicação nas estratégias de combate às pragas substitui ou reduz o emprego dos agroquímicos convencionais. Seu preço, porém, é alto para o uso em larga escala. 

Uma alternativa foi criar um atrativo alimentar para insetos com formulação que mistura substâncias já utilizadas por indústrias de cosméticos e de alimentos, explica Leandro Mafra, diretor da Isca. O produto, com o nome comercial de Noctovi  é misturado com o inseticida pelo agricultor. Essa mistura não precisa ser aplicada em toda a plantação, como é feito no modo convencional. É colocada apenas em faixas, a cada cem metros. As mariposas em busca de alimento são atraídas pelo cheiro desse “blend”,  e ao ingeri-lo irão absorver também o inseticida.  Embora os custos se equiparem, a técnica do atrativo alimentar significa uma grande redução no uso de inseticidas. De acordo com as informações da empresa, o agricultor utiliza um litro de inseticida para cem hectares e, no modo tradicional, um litro para cada hectare. 

O Noctovi serve para várias culturas, entre elas  milho, algodão, soja, sorgo, feijão e batata. E também, para vários tipos de pragas. Seu lançamento teve o “apoio” de um momento oportuno, quando a agricultura brasileira se deparou com a ameaça da helicoverpa armigera, a mais recente e temida praga que preocupa os plantadores e tem sido responsável por grandes prejuízos. Ele pode atuar como um complemento nas estratégias de manejo integrado, somando-se a outras técnicas, biológicas ou químicas – o produto elimina as mariposas, enquanto os agroquímicos em geral têm como alvo a lagarta.  

O lançamento do Noctovi abriu uma nova rota para a Isca e se apoia na experiência da empresa, criada em 1997, para comercializar produtos a base de semioquímicos. Na época, os plantadores de maçã do noroeste do Rio Grande do Sul precisavam  monitorar a praga conhecida como traça da maçã, ou cydia pomonella, que surgia como um alto risco para as colheitas. Do outro lado, estava o pesquisador e empresário Agenor Mafra-Neto, biólogo formado pela Unicamp e, naquele momento, pós-doutorando da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos. Ele criou a Isca Technologies, nos EUA, e a empresa brasileira, como importadora de produtos para monitoramento da praga. 

Inicialmente, a Isca importava o dispositivo constituído por armadilha e atrativo, isto é, o feromônio, substância de atração sexual para o inseto. Depois passou a fabricar a armadilha no país. Os feromônios, necessariamente importados, permitem fazer o monitoramento para saber a quantidade de insetos por hectare. Com isso o agricultor avalia o risco e decide outras ações.  Mas eles servem também para o controle biológico, quando distribuídos pela plantação, na forma de pasta ou líquido. Funcionam como uma “superfêmea” para a qual os insetos são atraídos, desperdiçando nessas tentativas o curto período em que têm capacidade para fecundar a fêmea. 

Parte do esforço tecnológico da empresa foi dedicada a aperfeiçoar formas de  aplicar esses semioquímicos, que se mostram indicados para áreas pequenas e médias. Ao longo desse período, a Isca lançou vários produtos mas sua atividade esteve basicamente concentrada nas culturas de frutas, a maçã em particular. Até 2012, nota Mafra, 80% de seu faturamento vinha do atendimento aos plantadores de maçã. Mas foram as frutas que abriram uma outra possibilidade. 

A ideia do atrativo alimentar, de menor custo,  tornou-se,  inicialmente, o produto Anamed, também para ser misturado ao inseticida. Ele serve para um único inseto, a mosca da fruta, mas é utilizado para várias culturas, como maçã, pêssego, ameixa ou mamão. Seu alcance geográfico, portanto, é amplo. Pode ser aplicado de forma mecanizada e traz o benefício dos semioquímicos.